Ao sentar para ler Tungstênio pela primeira vez, eu sinceramente não sabia muito o que esperar. Fiquei confuso vendo a capa, de rosa fortemente contrastante com a escala de cinza das imagens, que, à primeira vista, não têm relação uma com a outra. Depois de terminar, tudo fez sentido.

A história do quadrinho se passa em Salvador durante o que, pelas pistas visuais como modelos de carros, músicas do rádio e até mesmo os celulares mostrados, só pode ser algum período próximo do ano de 2005. Esse é um detalhe importante, uma vez que grande parte do charme da narrativa é a atmosfera.

Quintanilha nos dá quatro personagens principais: Caju, traficante e malandro; Seu Ney, um ex-militar que não aceita que os tempos mudaram; Richard “Richa”, um policial durão que tenta viver a vida a mil por hora e Keira, a esposa de Richard, insatisfeita com seu casamento, mas que, por algum motivo, não consegue largar do marido.

Todo o conflito do enredo começa no momento que Seu Ney e Caju avistam dois pescadores ilegais que usam bombas para pegar peixes (o que é um crime ambiental). A partir daí, o enredo engrena para não parar mais.

Tungstênio
A arte de Quintanilha, junta de diálogos realistas e com maneirismos, traz um ar realista e vivo a Salvador e aos personagens.

A escrita gera um suspense intenso e muito agradável de te deixar ávido e sedento para saber o que vai acontecer na próxima página, além de surpreender com as reviravoltas e o uso muito inteligente da repetição de quadrinhos para conectar acontecimentos simultâneos.

Os diálogos do quadrinho são todos imbuídos de maneirismos da Bahia e, especificamente de Salvador. Eu não digo apenas de expressões como “rei” ou “velho”, mas a própria forma que cada frase é formada e a colocação das vírgulas, deixam muito clara a forma que cada personagem fala. Lendo, eu podia praticamente ouvir o sotaque soteropolitano.

Logicamente, não podemos esquecer do principal traço narrativo de Quintanilha: o lado reflexivo de cada personagem. Durante os arcos dos respectivos personagens, o leitor se depara com o passado e os traços de personalidade de cada um, o que humaniza e, de certa forma, explica as ações de cada um, tornando-os muito reais e difíceis de não se relacionar, nem que seja só um pouco.

A estrutura da história me lembrou bastante o filme Babel (2006, dirigido por Alejandro Iñárritu), no sentido de mostrar diversos personagens com suas próprias histórias, a princípio desconectadas umas das outras, mas que eventualmente mostram que não só estão conectadas, como também são muito importantes para o desenvolvimento umas das outras.

Falando em filme, em Maio saiu um filme baseado nesse quadrinho. Eu ainda não tive a oportunidade de assistir, mas assim que eu puder, vou falar dele aqui. Até lá, fiquem com o trailer:

Nada mais natural que uma adaptação filmográfica para um quadrinho cuja arte é tão atmosférica. Os traços de Quintanilha são bastante realistas e cuidadosos, retratando uma Salvador quente, movimentada e viva, repleta de gente vivendo seu cotidiano.

As expressões faciais dos personagens principais, coadjuvantes e até mesmo dos figurantes, só reforça a ideia de que uma história louca como a de Tungstênio pode mesmo ter acontecido. Dado como cada personagem parece visceralmente real, cada qual com suas ruminações pessoais, personalidades distinguíveis e até diferentes formas de se expressar verbalmente, eu não duvidaria nada que exista de fato um Caju ou um Richa tal qual o do quadrinho andando por aí.

Tungstênio foi lançado em 2014 pela editora Veneta e ganhou o prêmio de melhor álbum de suspense no Festival de quadrinhos de Angoulême, na França, além do prêmio HQ Mix de Melhor Roteirista Nacional e indicação ao prêmio Rudolph Dirks de roteiro.

Eu comprei por aqui.

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