Confesso que quando eu comprei o primeiro volume de Trees, eu não estava com uma expectativa muito alta. A sinopse que a Amazon deu não me pareceu muito aprofundada e fez parecer um quadrinho de ficção científica meio genérico. No entanto, foi só eu abrir e ler as primeiras dez páginas que a minha primeira impressão desapareceu por completo.

Criado por Warren Ellis e Jason Howard, Trees trata das consequências de uma invasão alienígena da Terra por seres enormes nomeados de “árvores” (daí o nome do quadrinho) que, a princípio, ignoram a raça humana por completo, aparentemente não a considerando vida consciente. O enredo num geral se passa num futuro próximo, uma vez que a tecnologia bélica parece ter avançado consideravelmente: mechas e policiais andam pelas ruas, soldados usam armaduras e armas de fogo futurísticas e robôs-cão caçam criminosos.

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Uma coisa interessante de Trees é que o HQ começa no Brasil (apesar de ser em circunstâncias desagradáveis)

Por mais estranho que pareça, isso faz com que a presença dessas árvores seja ainda mais ameaçadora. Elas causam inúmeros problemas, como a mudança dos ventos, diminuição de espaço, inundações, a liberação de dejetos ácidos e subprodutos de suas presenças (não quero dar nenhum spoiler, ainda mais que é algo importante), além de uma série de problemas sociais.

A história acompanha quatro personagens que vivem sob a sombra dos quietos invasores ao redor do mundo: um jovem pintor chinês chamado Tian Chenglei que vai para a cidade de Shu. uma zona cultural especial logo abaixo de uma das Árvores; Marsh, um cientista britânico que faz parte de um grupo de pesquisas especial sobre uma Árvore no noroeste de Spitsbergen, na Noruega; Eligia, uma moça que namora um dos líderes de um grupo fascista em Cefalu, na Itália, e, por último, Malek, um correspondente francês que entrevista o presidente da Somália, que planeja um ataque militar ao país da Puntlândia utilizando uma Árvore na fronteira entre os dois países, que também acontece de ser a mais baixa do mundo.

O mais interessante do quadrinho é o quão realista ele é, socialmente. O arco de Eligia na Itália, que fala sobre como a sociedade num nível cotidiano é afetada pela presença da Árvore na cidade, é estranhamente preciso. É um momento de crise e todos parecem querer ir embora. Aqueles que podem, vão. Os que ficam presos, acabam tendo que lidar com situações outrora inaceitáveis, como uma gangue de jovens fascistas basicamente controlarem quase tudo e um abandono velado do governo.

No entanto, a parte que mais me chamou a atenção é o arco de Chenglei, que trata de forma sensível e bastante responsável as questões de gênero, sexualidade e primeiras paixões e descobertas. Chenglei, criado numa pequena vila no interior, acaba se deparando com uma miríade de novidades a respeito de si mesmo e sobre as pessoas como um todo ao conhecer não só uma, mas duas pessoas transgênero, uma pela qual ele se apaixona.

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A discussão sobre gênero e sexualidade no arco de Chenglei é muito interessante

O clima de mistério e suspense que paira por cima de todos os personagens por causa da presença das Árvores é algo que o HQ trabalha excepcionalmente bem e de forma sutil. Alguns momentos de tensão de um arco acabam “sangrando” para o outro devido às consequências que eles podem ter. Além disso, o estilo soturno de arte, que reforça bastante as sombras e dá às cores um tom pálido, ajuda bastante a estabelecer uma sensação de uma tensão e até de agonia inconsciente. Os tracejados têm um aspecto de trabalho manual, o que estiliza os sombreados e reforça ainda mais os tons escuros.

A grande sacada de Trees está na forma que o mundo todo reage à adversidade e até mesmo a um vazio existencial em certos momentos. Aqui, temos uma ficção científica realmente completa, uma vez que o roteiro abraça o escopo social, econômico, cultural, científico e pessoal de forma bastante original, criativa e efetiva.

Eu estou esperando ansiosamente a Amazon voltar a ter o volume 2 para eu continuar lendo e fazendo resenha, porque a leitura foi sinceramente maravilhosa.

O 1º volume de Trees é uma coletânea das edições de 1 a 8 do gibi e foi publicado em 2015. A série começou a ser publicada em 2014 pela editora Image Comics.

Eu comprei esse quadrinho em inglês por aqui.

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