Eu sou bastante fã do projeto Graphic MSP desde quando eu li Astronauta: Magnetar de Danilo Beyruth pela primeira vez, lá em 2012, pouco depois que saiu. A iniciativa de fazer uma releitura dos quadrinhos da Turma da Mônica sempre me atraiu bastante, mas essa atração (e satisfação, por consequência) nunca foi tão forte como foi com Jeremias: Pele, de Rafael Calça e Jefferson Costa.

Para contextualizar, o Jeremias é um dos pouquíssimos personagens negros da Turma da Mônica, sendo ele um dos “secundários” e que faz parte da turma do Bermudão, composta por Franjinha, Titi e Manezinho. Jeremias é conhecido por ser um personagem bastante tranquilo com a vida e contar histórias fantásticas para entreter a Turma.

No entanto, nós vemos um lado diferente de seu personagem em Jeremias: Pele. Aqui, “Jerê”, como é apelidado, passa por situações de racismo ativo e estrutural, bullying e vê pela primeira vez o problema da falta de representatividade negra nas mídias. Além disso, outros personagens negros também passam por situações similares, como até mesmo seu pai.

O enredo engrena quando a professora da turma de Jeremias dá um trabalho para apresentar diferentes profissões e suas importâncias. As primeiras “pancadas” começam quando a professora vai dando profissões de engenheiro, arquiteta e outras que envolvem ensino superior aos alunos brancos, mas imediatamente coloca Jerê, que sonha em ser astronauta (inclusive, inspirado pelos personagens de Astronauta: Magnetar, que fazem uma aparição neste quadrinho), como pedreiro.

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Jeremias: Pele trata o racismo em todas suas nuances. Seja aberto ou estrutural, ele está lá

Ao argumentar que preferia fazer uma apresentação sobre a profissão de astronauta, a professora retruca dizendo que é fantasioso demais. Para torcer a faca, um colega de turma dele faz um comentário racista sobre o cabelo de Jeremias “servir de capacete”. A arte fortemente expressiva faz todo o trabalho de demonstrar de forma clara a sensação de Jeremias, mudando a cor do fundo e mostrando o quão isolado e pequeno ele se sentiu naquela situação.

Por falar em arte, esse quadrinho é inteligentemente lindo. Não só pelas cores ou pelo trabalho maravilhoso de iluminação que permeia as páginas, mas também pela forma que os autores integram o texto nos quadrinhos. Por muitas vezes, as falas extrapolam as barreiras dos balões e se tornam parte do visual em si, expressando ainda mais o peso de certas falas e cenas.

Sendo eu mesmo negro, eu não posso deixar passar o quanto esse quadrinho me tocou. Inúmeras situações passadas por Jeremias e sua família são análogas às que eu mesmo já passei e, sinceramente, Rafael Calça e Jefferson Costa acertaram na mosca em todas as nuances do racismo estrutural e em como você se sente ao ser vítima dele. Sejam nas piadas ou nas pessoas ao seu redor dizerem coisas racistas sem perceberem ou nos olhares tortos e as bolsas suspeitamente apertadas no ônibus.

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A utilização de um crossover com Astronauta: Magnetar para tratar da questão de representatividade e afirmação é bastante inteligente e importante no HQ

Assim como na vida real, o quadrinho mistura a questão do racismo com uma ambivalência contrastante: ora sutil, ora firme e direto. A força desse quadrinho é chocante, principalmente porque todas as diferentes mensagens são profundamente efetivas. Seja negro, seja branco, seja o que for: você vai entender o que esse quadrinho quer dizer e talvez não seja algo fácil digerir: vivemos em uma sociedade racista e a maioria das pessoas não entende.

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Essa cena em particular foi bastante marcante durante a leitura. A atmosfera lúdica desaparece por completo numa espécie de choque de realidade.

No final das contas, Jeremias: Pele dialoga de forma estrutural, didática, lúdica e delicada com uma pá de problemas sérios, como autoimagem, representatividade, afirmação, racismo e exclusão social. Eu pessoalmente acredito que esse é um quadrinho que todos devem ler ao menos uma vez na vida. É difícil não se colocar no lugar de Jerê. Mais difícil ainda é não se emocionar em vários momentos diferentes.

Jeremias: Pele foi lançado em Abril de 2018, marcando como 18º HQ do selo Graphic MSP, e é distribuído pela Panini Comics.

Eu comprei ele por aqui.

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