Ao ler Saga pela primeira vez, eu tive a impressão de ter aberto uma porta desconhecida no mundo dos quadrinhos. De primeira, eu achei o HQ muito esquisito, principalmente pelo fato dele começar logo com uma cena de parto. Isso, por si só, já era intrigante. Porém, ao me deparar com robôs sencientes, estranhas e que pareciam ser tiradas de diferentes contos de fadas e entender como tudo aquilo funcionava junto, fiquei completamente amarrado e devorei num só dia o primeiro volume.

Saga tem uma premissa que eu julgo como uma das mais interessantes e ricas que eu já vi. Resumindo, o planeta de Landfall, povoado por um povo humanoide com asas altamente tecnólogo, entra numa guerra que atravessa diversas gerações com o povo mágico de Wreath, lua que orbita Landfall. Essa guerra é altamente destrutiva e, para evitar a extinção mútua dos dois povos vizinhos, é feito um tratado para terceirizar o conflito, levando-o para inúmeros outros sistemas através da galáxia.

A luta se espalha e engloba quase toda a galáxia, o que leva as mais diversas raças a se envolverem na guerra e gera uma divisão entre quem apoia o lado de Wreath e quem apoia Landfall. O conflito é lutado com tudo o que se possa imaginar: magia, armas futuristas, animais gigantes com poderes especiais, naves interestelares, espionagem, o que for. O importante é que essa é uma guerra ferrenha em que todos perdem de alguma forma.

Fonte: Reprodução
A arte de Fiona Staples consegue passar muito bem a sensação de humanidade em criaturas não humanas, além de ter uma fluidez de movimento que torna cada cena de ação muito interessante.

Essa variedade de formas de se lutar a guerra, assim como as mais diferentes (e às vezes esquisitas) raças de seres inteligentes presentes no HQ, dá ao enredo uma enorme e agradável sensação de vastidão e riqueza ao seu universo. A mistura de magia e tecnologia hiper futurista também traz um frescor muito bem vindo às páginas coloridas.

O enredo acompanha a jornada de Marko e Alana e é narrado pela filha dos dois, Hazel. Os dois protagonistas da série e a própria narradora são caçados implacavelmente durante a maior parte do HQ, uma vez que Marko é um ex-soldado de Wreath e Alana é uma ex-soldado de Landfall, formando, assim, um casal formado por pessoas que deveriam ser inimigas mortais.

É bastante interessante ver o espanto da maioria dos personagens secundários e até dos figurantes a essa união, ainda mais com a existência de Hazel, já que todos pensavam que era impossível que as duas espécies fossem capazes de procriar.

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É impressionante como os diálogos com personagens até mesmo figurantes são pincelados por traços de personalidade distinguíveis

A forma que a guerra em si é tratada também é muito realista, fazendo diversos paralelismos com conflitos que aconteceram na vida real. A guerra mata bastante gente inocente e o horror disso é retratado não só de forma gráfica, mas também (e principalmente) de forma psicológica e cultural. Um dos personagens, que passa anos num dos piores embates de todo o conflito, desenvolve Síndrome de Stress Pós-traumático. Lendo com atenção, é possível até identificar os gatilhos dele, o que adiciona toda uma nova esfera mental ao desenvolvimento do enredo como um todo.

Em sua jornada de constantes fugas, intrigas e situações perigosas, a família improvável cruza o caminho de vários personagens diferentes, cada um com sua própria história de vida e suas motivações. Essa humanização é um dos pontos mais fortes de Saga e uma das melhores características da escrita de Brian K. Vaughan (vale lembrar também que  esse é o mesmo que escreveu e produziu várias partes da série de TV Lost). Apesar de um personagem poder ser uma ameaça aos protagonistas, você consegue entender o lado inverso da história.

Além disso, a maioria dos personagens têm uma personalidade própria. Por muitas vezes eu me peguei rindo do quanto Alana e Marko parecem ser pessoas reais, cada um com sua bagagem emocional própria, seus gostos, maneirismos, senso de humor e mentalidade.

A dinâmica entre cada um dos personagens também é absolutamente fantástica. Os personagens geralmente andam em grupos, porém, nos momentos em que eles se separam, eles funcionam muito bem. É muito fácil notar a influência de um personagem sobre o outro, já que eles vão evoluindo com o passar da série. A forma que eles expressam seus sentimentos também é surpreendentemente humana, cada um com suas sutilezas (ou a completa falta dela).

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A dinâmica entre Alana e Marko é muito interessante, principalmente pela consistência das personalidades de cada um durante o desenrolar da trama

Outros personagens, como The Will, Gwendolyn e o Príncipe Robô IV também têm seus próprios arcos individuais, principalmente porque, apesar de se cruzarem ao longo do tempo, eles passam a maior parte do tempo separados (mas conectados de uma forma ou outra).

O HQ tem um ritmo muito agradável e que não te deixa entediado. Sempre tem alguma coisa acontecendo em algum lugar e o enredo não deixa de te mostrar e te explicar de forma clara e simples de entender.

A forma que a magia funciona, por exemplo, é explicada em pouco tempo, mas de forma extremamente efetiva: para executar um feitiço, são necessários alguns ingredientes, pensamentos e palavras de encantamento. Esses ingredientes podem ser diversas coisas: de tempo de sua longevidade a um segredo.

A presença da língua “blue”, falada pelo povo de Wreath, é uma ideia bastante inteligente e, apesar de ser um detalhe relativamente pequeno, adiciona bastante ao universo de Saga. Inclusive, se você tiver curiosidade de entender o que é dito em “blue”, é fácil! Basta abrir o Google Tradutor que logo ele vai identificar que a língua nada mais é do que Esperanto.

O Ano 1 de Saga, composto pelos seus 3 primeiros volumes, contém 18 capítulos e ganhou o prêmio Eisner e o prêmio Harvey de melhor quadrinho, melhor roteirista e melhor desenhista quatro vezes. O HQ é uma leitura fácil, agradável e muito difícil de largar. Eu planejo fazer resenha dos volumes de 4 a 8 em breve (e do 9, assim que sair).

Eu comprei o volume 1, o volume 2 e o volume 3 separadamente (pelos hiperlinks você pode dar uma olhada). Já a coleção do Ano 1 você encontra aqui.

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1 comentário »

  1. […] A presença da língua “blue”, falada pelo povo de Wreath, é uma ideia bastante inteligente e, apesar de ser um detalhe relativamente pequeno, adiciona bastante ao universo de Saga. Inclusive, se você tiver curiosidade de entender o que é dito em “blue”, é fácil! Basta abrir o Google Tradutor que logo ele vai identificar que a língua nada mais é do que Esperanto.[…]
    Esperanto – página de referências: https://esperanto.blog

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