The Wicked + The Divine é o tipo de quadrinho que me faz lembrar do que eu mais gosto numa boa história: bons personagens, uma premissa original e bem construída e um bom equilíbrio da trama entre ser meio pé no chão e meio viajada. E é exatamente isso que esse HQ faz, de cabo a rabo.

A premissa básica de Wic+Div, como é costumeiramente chamada pelos fãs, é bem clara (especialmente porque está literalmente descrita no verso de todos os volumes): “a cada noventa anos, doze deuses retornam à vida como jovens. Eles são amados. Eles são odiados. Em dois anos, eles estão todos mortos. Está acontecendo agora. Está acontecendo de novo.”

Normalmente, você acharia que é um quadrinho de ação, similar a uma premissa de super-heróis, ainda mais que Kieron Gillen (roteirista), Jamie McKelvie (desenhista) e Matthew Wilson (colorista) trabalharam com a Marvel em Jovens Vingadores. No entanto, apesar de acontecerem algumas cenas de ação (especialmente no volume 4, que é o segundo volume do segundo ano do HQ), The Wicked + The Divine tem uma pegada mais cultural, por assim dizer.

Reprodução/Image
Os deuses em Wic+Div são como uma espécie de artistas superpoderosos

Nessa série, os doze deuses (que, juntos, formam o que é chamado de Panteão) têm sim uma miríade de super poderes diferentes. Alguns são até bem característicos deles e viram meio que uma marca registrada (o Baal com o trovão, por exemplo). No entanto, parece que todos eles têm um instinto interno de serem artistas, especialmente porque, pelo menos nessa geração, o que eles mais gostam de fazer é um bom show de música com base em seus poderes e juntar fãs (ou adoradores, depende da perspectiva).

No primeiro ano (composto pelos capítulos 1 a 11 ou, se preferir, volume 1 e 2), a trama acompanha a jornada de Laura Wilson, uma jovem que é bastante fã dos deuses e sempre que possível tenta ir aos shows deles. A vida dela muda bastante no momento em que ela vai a um show da deusa Amaterasu (deusa xintoísta do sol) e acaba passando mal e desmaiando. Ela é levada para uma sala nos bastidores, onde ela conhece Lúcifer (que é um dos deuses do Panteão e encarnou como uma mulher) e, antes que ela possa perceber, acaba se envolvendo pessoalmente com vários dos deuses numa trama misteriosa de assassinato e intriga.

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A arte desse quadrinho é sensacional. Do senso de moda e o jeito fluido que as roupas se comportam à iluminação e os cenários: tudo é feito de um jeito bem natural.

Os mistérios da série são grande parte do que mantém a trama funcionando: lendo, várias perguntas surgem à mente e algumas delas são respondidas, por muitas vezes levantando ainda mais dúvidas. Porém, isso não é feito de um jeito a te deixar sem chão e dentro de uma espiral de confusão. O talento da escrita de Gillen fica bastante evidente no momento que a trama poderia ficar facilmente cansativa ou repetitiva, mas não fica justamente por te dar personagens muito interessantes e carismáticos, além de mistérios e respostas em doses certas.

O Panteão é uma grande mistureba multicultural, o que torna muito interessante a trama da união deles. Os doze são: Minerva (a versão romana de Atena), Amaterasu, Baal, Inanna, Tara, Ananke, Morrigan, Urdr (ou Urðr), Lúcifer, Baphomet (sem querer dar spoiler, mas no ano 2 a gente descobre que na verdade ele é outro deus), Sakhmet e Woden (também conhecido como Odin). O mais interessante de tudo é que, por eles serem deuses que englobam culturas diferente e, portanto, interpretações diferentes, eles mesmos ficam na dúvida sobre como os poderes deles funcionam.

É interessante como cada um dos doze deuses tem seu próprio estilo de vestimenta e maquiagem e, com isso, como seus fãs/seguidores/adoradores tentam copiar ou dar seu próprio ar de originalidade aos looks dos deuses. É divertido ver esse tipo de coisa especialmente porque, querendo ou não, eles são influenciadores e popstars, não muito diferentes da Rihanna ou da Beyoncé, por exemplo.

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Inclusive, de todos os deuses, o que mais leva a coisa de ser um popstar ao pé da letra é o Baal (vocês também acham ele parecido com o Drake?)

Eu também não poderia deixar de falar da arte incrível desse HQ. McKelvie não só tem um tato fora do comum sobre moda e estilo, como também tem toda a sutileza em seu traço para deixar os personagens o mais realisticamente expressivos possível.

Lendo, eu tinha a impressão de estar olhando para pessoas reais, ainda mais que cada uma delas tem seus próprios maneirismos de expressão. Além disso, as cores de Wilson fazem da narrativa e dos personagens em si ainda mais originais, especialmente porque elas fazem grande parte do trabalho de expor como funcionam poderes, sensações e o sobrenatural.

The Wicked + The Divine é publicado pela editora Image e é distribuída no Brasil pela GeekTopia. A série ganhou o prêmio Kerrang! de melhor quadrinho e melhor base de fãs. Eu comprei o volume 1 em inglês por aqui e o volume 2 também em inglês por aqui.As edições em português você pode comprar por aqui (vol. 1) e aqui (vol. 2). Há também uma coletânea (em inglês) do primeiro ano que você encontra por aqui.

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