Quando eu li Talco de Vidro de Marcello Quintanilha pela primeira vez, eu tinha acabado de terminar Tungstênio. Eu tinha achado que encontraria algo similar: um suspense de ritmo acelerado que explora os personagens enquanto a história se acelera em ritmo vertiginoso. Enquanto o aproveitamento da protagonista é enorme, a cadência dos fatos no enredo em si é completamente diferente e toma seu próprio tempo, o que determina um foco diferente nesse HQ.

O enredo acompanha as ruminações internas e acontecimentos da vida de Rosângela, uma dentista que viveu a vida toda na esfera da classe média-alta. Durante boa parte do quadrinho, a mente de Rosângela reflete sobre se sentir superior às pessoas que não fazem parte dessa “panelinha high-society” que ela participa com o até então marido, mas sem aceitar que ela realmente pensa isso.

No entanto, a “bolha” de Rosângela é sempre estourada na presença ou mera lembrança de sua prima, Daniele, de quem ela claramente tem inveja por apesar de ser divorciada (Rosângela deixa bem claro que acha o divórcio algo terrível de acontecer), morar no Barreto (bairro distante em Niterói), ela julga ser radiante, carismática e bonita, só que além do que sua “classe social” permite. Com isso, Rosângela sempre busca formas internas de tentar se colocar acima de Daniele, mas isso a leva a uma crise existencial profunda.

PhotoScan (3)
A arte de Marcello Quintanilha mais uma vez captura muito bem o ambiente e as pessoas que vivem nele. Em Talco de Vidro, a história se passa em Niterói (RJ).

Quintanilha escreve a mente de Rosângela de forma muito interessante. Como em Tungstênio, ele entra na mente da personagem e esmiúça o que ela pensa de forma pessoal, mas como um narrador externo que conhece exatamente como as coisas funcionam dentro da cabeça de Rosângela.

No entanto, aqui há uma grande repetição dos pensamentos, o que dá à linha de raciocínio um aspecto de ser um pensamento rejeitado pela própria Rosângela, além do narrador sempre repetir que ela negava realmente pensar aquilo e “gaguejar” por assim dizer.

Uma coisa muito interessante de se notar é que diversas metáforas que normalmente seriam apenas textuais acabam se tornando visuais, o que faz o ritmo mais lento do quadrinho ser mais efetivo ao leitor quando ele se depara com momentos surrealistas visualmente.

PhotoScan (2)
As metáforas visuais são muito bem pensadas e têm grande significância durante o desenvolvimento do enredo

Também vale mencionar que o desenvolvimento de Rosângela por todo o enredo do HQ é muito bem feito. Sem spoiler, mas a personagem muda bastante do início até o fim e faz coisas que, no começo do enredo, não consideraria de forma alguma. O mundo muda bastante ao redor dela também, com o passar do tempo, deixando-a sempre “desarmada”, de certa forma.

Pessoalmente, eu tive um pouco de dificuldade com esse quadrinho. Apesar dele não ser lá muito comprido, o ritmo se apresentou como um desafio para mim, justamente porque vira e mexe a narrativa remói muitos momentos passados. Talvez seja intencional, mas a sensação que eu tive foi de um certo cansaço depois de um tempo. Mesmo assim, foi uma leitura bem legal.

Talco de Vidro foi lançado em 2015 pela editora Veneta.
Eu comprei ele por aqui.

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