Quem me conhece, sabe que eu larguei os quadrinhos de super-heróis tem tempo. Enjoei bastante do gênero por vários motivos: geralmente não dá para começar um quadrinho sem ter lido pelo menos uns 8 outros que saíram antes sem ficar desorientado; as narrativas por muitas vezes ficam sem mastigando demais para vender os almanaques menores; algumas histórias simplesmente são bobas e sem graça (opinião impopular) e, o motivo principal: não há riscos. Quase ninguém morre e fica morto até o fim. Todos os super-heróis parecem ter um complexo de Jesus Cristo, incapazes de morrerem por muito tempo (mesmo assim, eu gosto bastante dos filmes da Marvel).

Dito isso, Alias, o quadrinho solo da Jessica Jones, não é nada disso. Quando eu comecei a ler, fui com sentimentos mistos. Eu vi a série da Netflix (gostei bastante da 1ª temporada, inclusive) e me disseram que ela era pesadamente baseada nesse HQ, então decidi dar uma chance. Não me arrependi.

A história de Alias é bastante sóbria, realista, pé-no-chão e até meio sombria. Jessica Jones, super-heroína aposentada, tem problemas financeiros, fala bastante palavrão, fuma e bebe pra caramba, sente medo e só quer viver a vida dela em paz. Resumindo: gente como a gente. Parece uma pessoa real, assim como todos os outros personagens que aparecem no quadrinho, o que é um toque muito bem vindo ao universo dos quadrinhos da Marvel.

Reprodução/Panini
Uma das coisas mais legais de Alias é como os diálogos são bem cotidianos (inclusive, a tradução é ótima)

O primeiro volume distribuído pela Panini reúne os 10 primeiros capítulos da detetive particular e engloba três arcos principais. O primeiro envolve uma conspiração de nível nacional envolvendo uma fita cassete (esse quadrinho começou em 2001, para você ver como algumas coisas ficam datadas) que Jessica grava que acidentalmente revela a identidade secreta do Capitão América.

O segundo, que é bem mais “light” por assim dizer, envolve Jessica tentando encontrar uma pessoa nas ruas de Nova Iorque que está, supostamente, em perigo. Já o terceiro é bem curtinho e envolve a vez em que Jessica é contratada pelo Clarim Diário para descobrir e expor a identidade secreta do Homem Aranha.

Apesar de serem histórias muito interessantes, é importante apontar os pontos negativos. Por mais que, pessoalmente, eu não goste muito de criticar o lado visual dos HQs, a arte não agradou muito (tirando a do terceiro arco desse primeiro volume). Eu entendo que, por ser um quadrinho do Selo MAX*, voltado para adultos e com um foco mais sombrio, a arte teria que ser um pouco mais soturna.

O problema é quando ela exagera nas sombras e, com isso, perde-se muito da humanização dos personagens (principalmente os olhos) e eles ficam parecendo, sem brincadeira, monstros bizarros que saíram dos seus pesadelos de quando você era criança. Também não ajuda misturar esse tanto de sombra com uma paleta de cores pastel. Fica esquisito e acaba se tornando uma estética datada e esquisita.

Reprodução/Panini
O meu maior problema com essa HQ foi a arte. Aqui dá pra ver bem o quanto esse exagero nas sombras prejudica o visual, com a Jessica parecendo um demônio de Supernatural

Outro problema que a série tem, e esse é mais estrutural que estético, é a organização dos quadrinhos. Esse é um HQ que tem várias páginas duplas, mas parece que não sabe como aproveitá-las enquanto conta a história.

Enquanto você tem um painel de duas páginas, você também tem vários quadrinhos o sobrepondo, muitas vezes nos quatro cantos das páginas. A informação fica confusa e dá até pra se perder, uma vez que você não sabe se esses quadrinhos estão organizados horizontal ou verticalmente (parece um erro básico de quem começou a ler ontem, mas, nesse HQ. isso acontece com frequência).

Fora isso, é uma leitura e tanto, especialmente porque a perspectiva da Jessica é muito bem passada para o leitor. Os pensamentos dela não são de narrador onisciente e ela fica tão surpresa quando você quando uma reviravolta acontece, aumentando bastante aquela sensação de intimidade com a personagem.

Reprodução/Panini
Uma coisa que Alias faz certo é a utilização de quadrinhos repetidos ou similares para dar uma atmosfera de tensão ou de lentidão. Nesses momentos, o roteiro e o visual carregam um ao outro muito bem.

O jeito que cada trama se desenvolve também é bastante agradável. Em momento algum a história fica parada demais (coisa que, infelizmente, acontece frequentemente na série) e nada acontece. Os acontecimentos e pensamentos são bem cadenciados e a escrita carrega bastante do HQ, que usa bastante da repetição de quadrinhos para efetivamente dar uma atmosfera cotidiana e mais lenta.

*O que é o Selo Max? O Selo Max é uma vertente editorial da Marvel criada no início dos anos 2000 que voltou seu olhar ao público adulto com cenas com conteúdo explícito e não adequado para menores de 18 anos. Alguns dos principais títulos do selo são BladeJusticeiro MAX e, claro, Alias.

Alias foi lançada em 2001 e terminou em 2004, mas está sendo relançada pela Panini no Brasil em formato capa dura. Você pode encontrar o primeiro volume aqui e o segundo aqui. Farei resenha do segundo volume em breve. Fiquem ligados!

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