Opus é um mangá metanarrativo escrito por Satoshi Kon (criador de PaprikaPerfect Blue e um dos colaboradores de A Viagem de Chihiro ao lado de Hayao Miyazaki) que gosta de brincar com a sua cabeça. “Metanarrativo? Como assim?” alguém pergunta. Bem… É um mangá… sobre um mangá. Sabe aquele filme A Origem? (Aquele, sobre os sonhos dentro de sonhos, do Leonardo diCaprio). Então, pensa em algo assim.

A trama de Opus acompanha Chikara Nagai, um mangaká (quem escreve mangás) que está prestes a terminar Resonance, seu mangá sobre investigações e pessoas com poderes telepáticos, é puxado para dentro do mundo dos quadrinhos, numa das maiores quebras de quarta parede que eu já vi (o cara literalmente cai dentro da página e entra no universo da história que ele escreveu).

Reprodução/Panini
Na primeira vez que eu li essa cena, eu precisei parar e reler pra entender 100% o que tinha acabado de acontecer

Lá, ele descobre que um dos personagens principais, Lin, está insatisfeito com o desfecho do mangá, que inicialmente levaria à sua morte. Tão insatisfeito, na verdade, que ele acaba roubando a página em que a sua cena de morte está desenhada, basicamente empacando o desenvolvimento da história.

A história em si, devido às inúmeras reviravoltas, é difícil de ser contada em poucos parágrafos. É muito mais fácil entender lendo (coisa que eu recomendo bastante. Dito isso, esse mangá basicamente pinga de criatividade visual e narrativa, clássicas de Satoshi Kon.

Seja com páginas que mostram outras páginas, esboços propositalmente não terminados ou até mesmo rachaduras nos quadrinhos e nas bordas, a Satoshi Kon demonstra sua infindável habilidade de usar ao máximo das páginas para contar uma boa história.

Quem viu Paprika (aliás, fica aqui outra recomendação), sabe que ele adora um bom surrealismo de dobrar o cérebro. Lembra que eu falei de A OrigemPaprika serviu de inspiração para a  grande maioria das cenas surreais do filme. Esse é o nível do surrealismo.

Como se trata de um mangá, a metanarrativa tem elementos tanto visuais quanto de roteiro. Os personagens questionam a trama do mangá e sofrem de um grande choque niilista ao conhecer Nagai, que, de certa forma, é basicamente Deus para eles, uma vez que ele controla o destino de suas vidas e do mundo em que vivem.

Nagai também comenta elementos do cenário, do visual de cada personagem e coisas do tipo, especialmente como, com o aumento da distância dos cenários, os elementos visuais vão perdendo detalhes e substancialidade (como prédios se tornando paredes gigantes de papelão, figurantes sem rosto e falas, por exemplo).

Reprodução/Panini
Alguns elementos da vida real “sangram” para as páginas do mangá de Nagai

Ao olharmos para o cotidiano de Nagai, também podemos ver de onde ele tira suas inspirações para os personagens e para a narrativa, além de como o sucesso de Resonance afeta sua produção. Pela escrita, dá para ver que existem vários elementos da vida pessoal de Satoshi Kon espalhados pelos quadrinhos, principalmente nas dificuldades do processo criativo.

Infelizmente, Opus nunca foi completamente terminado. Perto do final de sua produção, a Comic Guys, revista na qual o mangá era publicado, foi cancelada. Nessa mesma época (no ano de 1996), Kon estava trabalhando na sua animação, Perfect Bluee não voltou a escrever para a série, que acabou com 19 episódios.

Após a morte do autor em 2010, o mangá foi republicado com um episódio final encontrado em seus arquivos. O desfecho do mangá nunca foi completamente arte-finalizado (as páginas são esboçadas a lápis e estão sem retícula), mas é bem fácil lê-lo.

Reprodução/Panini
Opus é uma verdadeira obra-prima visual e narrativa para os mangás

 

Nele, o próprio Kon aparece e se depara com o cancelamento da revista. É aí que temos um insight de onde ele tirou a inspiração de Chikara Nagai: ele mesmo. Nagai, neste desfecho, sai das páginas do trabalho de Kon e eles conversam a respeito do final da série, mas acaba ficando por isso mesmo.

É um encerramento bastante abrupto e agridoce, especialmente porque, apesar de ser uma história curta (só tendo 19 capítulos e 2 volumes na coleção da Panini), é bastante interessante e difícil de não se investir emocionalmente. Apesar disso, é uma leitura muito divertida e eu recomendo bastante pegar.

Opus é distribuído no Brasil pela Panini Comics. O volume 1 você encontra aqui e o volume 2 você encontra aqui.

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