Todo o meu processo de encontrar Witches foi bem imbuído de uma sensação estranha de misticismo. Comprei os dois volumes de uma vez só na Bienal do Livro aqui em Brasília pela capa e pelo mistério: as capas de cada volume não expunham nada, apenas os rostos do que eram claramente personagens. E, também, havia o fato de nem eu, nem o vendedor do stand sabermos nada sobre aquele mangá.

Pensei em pesquisar no Google, mas algo me dizia que eu não deveria fazer isso, que estragaria a leitura. Acabei indo pela minha lógica de “se for ruim, pelo menos a arte parece boa” e levando os dois volumes misteriosos do mangá para casa. Quando sentei para ler, fiquei ao mesmo tempo intrigado e fascinado pelo mangá.

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Logo ao abrir, você se depara com isso aqui. A arte e o enredo do mangá são sensacionais e só essa introdução a ele diz muito.

Witches é um quadrinho que conta quatro grandes histórias (SpindleKuarupu, Petra Genitalix e A Ladra de Canções), todas completamente desconectadas umas das outras. Ou seja, é uma antologia. No entanto, é difícil não sentir que todas elas compartilham do mesmo mundo, devido a todo o mote de misticismo, imagens oníricas e o ponto em comum de ver a vida na cidade grande como algo negativo e caótico (o que é uma característica da escrita de Daisuke Igarashi, como visto em Little Forest, outra obra do autor).

Algo que me chamou bastante a atenção é que todas as histórias, com a exceção de uma, se passam fora do Japão e fazem inúmeras alusões às culturas dos locais em que se passam. Por exemplo, Spindle, a primeira história do primeiro volume, se passa inteiramente em Ancara, capital da Turquia, e toca na história do Império Bizantino, além de retratar pratos e iguarias tradicionais, tapeçarias, a arquitetura e até a cultura local dos grandes bazares tradicionais.

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Eu acabei precisando pegar essa imagem da internet porque ela é dividida em duas páginas no mangá físico e fica difícil de ver em todos os detalhes, mas olha isso. Dá para notar que foi um desenho feito inteiramente à mão.

A escrita é bastante onírica e sempre fazem com que o leitor se sinta meio desconfortável ao ver algumas atitudes esquisitas dos personagens, o que passa de forma sutil e implícita a presença da magia que perpassa o cotidiano dos personagens representados.

Cada uma das histórias, sem exceção, têm aquela vibe de “não entendi, mas entendi”, apelando para o instinto do leitor, sem explicar tudo o que acontece de forma óbvia. Isso é realmente muito refrescante e agradável, uma vez que muitos mangás pesam bastante a mão na hora de explicar o que está acontecendo, sem deixar muito espaço para interpretação.

 

Falando em representação, eu preciso dizer que, sem eira nem beira, a arte de Daisuke Igarashi é de cair o queixo. Os cenários são todos desenhados à mão, sem a utilização de estêncis e, em alguns casos, até sem retícula, o que não é só impressionante, como é  fácil de perceber. Dá para ver os rabiscos e o nível quase cirúrgico de atenção a detalhe e simetria da mão do autor, o que mostra o tanto de carinho e talento que ele colocou em cada página.

 Tudo isso dito, eu preciso admitir que Witches não é um mangá para todo mundo. Ele tem um ritmo constante, mas um pouquinho lento, que te leva ao clímax de cada história a um passo de cada vez. Nenhuma das histórias retratadas tem momentos absurdos de ação e diálogos dramáticos, te dando uma sensação mista de alta-fantasia com realismo.

Ao juntarmos tudo isso ao fato de ser uma antologia e cada história ser contida em si mesma, cada uma começando do zero (inclusive com o ritmo), a leitura pode se tornar um pouco cansativa. Mesmo sendo só dois volumes, eu demorei mais de uma semana para terminar, justamente pela sensação de peso. No entanto, pessoalmente, eu achei isso algo muito positivo.

Witches foi publicada no Brasil em dois volumes distribuídos pela Panini e pela Planet Manga. Você pode comprar o volume 1 aqui e o volume 2 aqui.

 

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